sexta-feira, 17 de setembro de 2010
REUNIÃO CONFIRMADA (RETIFICAÇÃO)
Todos(as) que quiserem participar de nossa próxima reunião, que debaterá o livro "O recado do morro" de Guimarães Rosa, serão bem vindos(as). Abaixo as informações sobre data e hora:
Data: 24.09.2010 (Sexta-feira)
Horário: 16h
Concentração (Local): Bloco A - Sala 5 - Campus Básico - UFPA
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
O recado do morro
Aí vai a sinopse do nosso próximo livro com reunião prevista para a próxima semana!
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A história ilustra o mundo sem lei. No sertão, vigora a regra, e não a lei - a regra da aliança e da vingança. Para o autor, estão em jogo ali novamente os destinos da civilização e da cidadania brasileira.
O recado do morro, os personagens-viajantes se deslocam pelo interior de Minas e por vários campos do saber, ao mesmo tempo em que recontam e decifram antigas estórias, relatos da loucura e mitos anônimos. Nesse conto, uma rede de narradores é estabelecida para passar adiante uma estória que, ao final, ainda é a mesma embora já seja outra.
O recado do morro, ouvido por Gorgulho, é contado para seu irmão Catraz, que o reconta para o jovem Joãozezim, que o narra para Guégue, o guia que se orienta por referências móveis. A partir daí, o recado vira boato e pode ser ouvido no discurso apocalíptico de Nômini Dômini, nos números inscritos pelo Coletor na parede da igreja, ou na letra cantada ao violão por Laudelim, até que se torna compreendido por seu destinatário, o guia Pedro Orósio, que sempre ouvira as diversas variações
da mesma história sem atinar para o fato de que isso era um aviso de sua própria morte.
Constituído pelas relações cooperativas e desarmônicas entre saber e não-saber - entre aquele que sabe e aquele que não sabe, entre o que cada personagem sabe e as formas como o sabe e o compartilha -, o conto opera com formas e temas não-excludentes, que podem ser verificados pelos freqüentes processos de tradução capazes de dar sustentação a uma poderosa estrutura fractal e em rede.
À medida que a comitiva avança sertão adentro, o recado vai sendo passado de boca em boca a personagens excêntricos: bobos, loucos, lunáticos, fanáticos religiosos e um menino, até chegar aos ouvidos do músico Laudelim, que transforma a mensagem numa canção. Traduzido para a música, o recado é então compreendido por Pedro Orósio, a tempo de receber o aviso do Morro sobre as intenções de seus falsos amigos.
O morro da Garça, em Minas Gerais, assume papel de destaque no conto, ao enviar mensagem de morte à personagem principal do conto, captada por um visionário sertanejo e afinal percebida a tempo por tal personagem.
Fonte: Mundo do Vestibular (!). Acesso em: 18 Ago 2010.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Relatório da obra "Caim", de José Saramago

O falecido autor, com um propósito que a princípio se nos mostra inescrutável, resolve escolher uma dentre a extensa gama de múltiplas figuras alegóricas que atuam como personagens no "Livro dos Disparates" para servir de norte à narrativa. Na realidade, por motivo que vai se tornando um pouco mais claro ao longo da história (em que pese o caráter meramente especulatório de qualquer conclusão a respeito, eu diria apenas para fins de interpretação conforme, aos moldes do que fizemos no nosso debate), Saramago fixa Caim como pivô de sua releitura, por meio de deus e de uma marca no meio da testa do dito mortal.
Embora eu não soubesse disso em razão da minha quase nula cultura bíblica (e que vergonha), Caim de fato recebe um sinal físico de Deus [redação oficial], evento que marca a sina que lhe destina o Criador, na ocasião em que este toma conhecimento do assassinato de Abel. No original, o propósito reside na estrita punição eterna de Caim, a quem só resta andar vagabundo por aí, não podendo sequer ser morto, sob pena de o homicida receber castigo sete vezes mais grave (o porquê do número? Maneirismo divino...). E assim a história de Caim encontra desfecho em sua descendência, até onde me consta não se voltando a contemplar o que restou do errante irmão ingrato.
Ora, que oportunidade interessante, deve ter pensado Saramago, para completar a história do personagem perdido. Uma espécie de conto inacabado do Antigo Testamento.
Foi o que ele fez, deveras. E aí encontro o primeiro motivo para a eleição de Caim, se é que isto importa sumariamente ao relatório, não obstante explico mesmo assim: uma significativa falha narrativa por parte dos glosadores da Bíblia, evidente erro de continuidade, e por culpa de deus. Se ele pelo menos não tivesse mencionado que o sujeito não poderia morrer, presumir-se-ia o óbito; mas nem isso. Vislumbra-se aí pano para manga e o primogênito vira protagonista e título da obra.
A quem parecer simplista a conclusão (pois ela é), cabe mencionar o que chegou a ser tratado em debate (e que citei acima) como a causa para a escolha de Caim, que parece se tornar mais clara ao leitor à medida que a trama de desenvolve. Não se esqueça que uma das principais temáticas abordadas pelo autor em "Caim" é exatamente a contradição (estilo cara-de-pau) no comportamento de deus, um contraste entre o bondoso, criador, fonte de misericórdia; e o juiz dos homens e dos tempos, punidor, inquestionável na mais patente das injustiças. Isto é, considerando que o núcleo narrativo de Caim – ou seja, o assassinato de Abel em razão de uma das contradições de deus – traduz perfeitamente o propósito crítico de Saramago, não poderia haver figura bíblica mais adequada ao mister. Isto porque é a partir desta contradição que os demais episódios serão descritos e observados através de lente vermelha de Caim.
Deve-se, contudo, descartar de pronto a ideia de que nosso herói atua como mero espectador dos fatos que presencia ao longo de sua peregrinação. Para isso, basta lembrar do papel decisivo que ele assume ao evitar que Abraão mate o seu filho Isaque em sacrifício a deus, determinando desta forma o rumo da humanidade conforme se conhece hoje.
Pois bem. Fato é que, profundamente contrariado pelas atitudes de deus, mergulhado em questões de cunho quase existencial, Caim parte a lugar nenhum, encontra pelo caminho um parceiro burro por cuja companhia passaria a dar a vida, lança as bases de sua descendência nas terras de Nod e adquire o indigesto costume de mudar de presente a todo momento. Na realidade, a mudança de presentes é explicada por Saramago em interessante digressão sobre a natureza do tempo, o que aproximou de certo modo as reflexões sobre "Caim" das questões levantadas no debate do filme "Quem somos nós?", realizado lá em casa. No atinente à lógica da história, a narrativa de "Caim" é marcada essencialmente pelo rompimento da linearidade projetada sobre a noção que fazemos de "tempo", o que decerto permite ao leitor uma leitura confortável, menos temporal, mais temática e coerente com o desenvolver dos pensamentos do protagonista, a partir dos quais se produzem as críticas do autor.
Em razão do que melhor me socorre à memória no momento, ilustro com o episódio de Sodoma. Nele resta bem claro o alvo de Caim e de Saramago: na ocasião, deus decide pôr fogo na cidade por verificar a peculiar preferência sexual de seus habitantes, sem atentar ao fato de lá haver "inocentes", as crianças e as mulheres que em nada contribuíram para a infração ao ordenamento divino praticada pelos homens. A partir disso, Saramago questiona tanto a prerrogativa de deus para ingerir na vida privada dos homens quanto, de modo ainda mais incisivo, os princípios da justiça divina. A destruição de Sodoma, presenciada por Caim, acaba se tornando um dos argumentos mais utilizados pelo personagem/autor para colocar em xeque a legitimidade de deus.
Outro tema interessante, que também ocupou boa parte do nosso debate, foi a “inescrutabilidade” dos desígnios de deus, amplamente abordado na obra. O fato de não se poder sequer questionar as decisões tomadas pelo todo-poderoso acaba por representar, conforme sugere o autor, imperativo de idiossincrasia e permissividade aos seus atos, a partir daí pouco importando até que ponto se encontra revestida de razoabilidade a Providência.
Acredito ser este o respaldo destinado a manter a distância entre deus e o homem, aquele no poder supremo, este na sua eterna subalternice. E culpa de quem?, pergunta-se. Do próprio homem, que criou Deus à sua imagem e semelhança (e mais uma vez emerge questão mencionada no filme), atribuindo-lhe prerrogativas que mais tarde viriam a lhe autorizar uma série de absurdos como aquelas descritas no livro, bem como tantas outras que se observam do lombo do hipopótamo.
Em verdade a questão fundamental é saber o que queremos é deus ou Deus, conforme mencionado na oportunidade dos debates.
Tratando-se deus da projeção humana, há que se concluir que nele subsistem os defeitos, vícios e fraquezas do próprio homem. Façamos uma leitura mais atenta do significado do Novo Testamento em relação ao seu predecessor, e nessa relação será possível identificar a dialética que alimenta a nossa existência. E sua expressão máxima se consubstancia exatamente na parábola de Jesus Cristo, no sentido mais elementar de sua filosofia, despido de qualquer sentido religioso. A partir deste ponto de vista, acredito não restar dificuldade para definir o que vem a ser, enfim, o termo de Caim, o ponto final à sua discussão perpétua: reconhecer em deus a fraqueza presunçosa do homem e no Homem a eterna sabedoria de Deus, numa busca incessante pela legitimação da própria felicidade (propósito universal), em todos os seus aspectos. Poderíamos começar seguindo o exemplo do "Filho do Homem", que veio à Terra redimir os pecados de deus.
domingo, 11 de julho de 2010
C²: Cinema e Ciência

foto: mariana de matos
Em decorrência do debate do livro do nosso querido José Saramago, "Caim", pelo questionamento de deus que nos foi trazido, viemos a nos deparar este mês com o filme "Quem somos nós?"(2004, EUA).
Esta obra em formato de semi-documentário questiona não quem somos, mas sim o que sabemos, a condizer muito mais com seu título original: "What the b**** we know?". Assim, põe a protagonista Amanda (Marlee Matlin) em uma posição de confronto com a sua forma de acesso ao conhecimento, ao "real", elementos cujo questionamento não cessou durante o decorrer do filme e de nosso debate. Afinal, o que parece sólido, objetivo, perpassa tal qual nossos pensamentos e sonhos por nosso cérebro e, portanto, tem sua constituição alterada por uma sensibilidade subjetiva.
Este argumento é demonstrado na película regida pelo trio William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente, através do exemplo dos aborígenes americanos. Conta a lenda que, quando da chegada dos povos europeus no continente americano, os habitantes locais não conseguiam enxergar as embarcações que traziam os estrangeiros. Isto se deve ao fato de que os barcos da época eram tão diferentes de tudo anteriormente visto por aquela população que eles não conseguiam formar mentalmente aquelas imagens e dizê-las.
Com o passar do tempo, no entanto, o xamã de um daqueles povos começou a notar ondulações não comuns nas águas e passou a mirar atentamente o horizonte na tentativa de descobrir a causa daquele fenômeno. Assim, após alguns dias, conseguiu finalmente enxergar os barcos. A partir daí, começou a dizer aos seus e suas iguais sobre estes aparelhos. Depois de algum tempo, todos e todas puderam ver o que somente o xamã inicialmente pudera.
Ao debater esta lenda, chegamos a conclusão de que seria mais certo dizer que os aborígenes chegaram a ver as embarcações, mas que, em virtude de suas formas de expressar o mundo, somente conseguiram dizê-las após decorrido algum tempo. As suas vidas, profundamente ligadas à natureza, não permitiam a expressão de obras tão "sofisticadamente" produzidas por seres humanos.
Percorremos até aqui o caminho que terminou por esgotar nossas reflexões neste dia de Ciência e Arte, mas que nos lançou ao infinito ao questionar qual a validade do que vemos e qual é nosso papel enquanto estudantes e pesquisadores ao intervir na
realidade... Qual é a dimensão do nosso poder de modificá-la e o que fazer com isto?
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Quem somos nós?
No contínuo de nossas reuniões, segue este blog. Disponho abaixo a sinopse do filme "Quem somos nós?", que será alvo de nossos debates na reunião de amanhã (01.07), às 16h, na casa do Fábio.
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Fonte: UOL CINEMA
Quem somos nós?
Rubens Ewald Filho
Nascido para ser cult movie, este filme diferente ficou mais de um ano em cartaz numa sala em Los Angeles. Depois em São Paulo, também saiu num circuito pequeno e ficou numa única sala criando um publico atraído pelo Boca a Boca. Naturalmente, a critica não entendeu nada chamando-o de "auto-ajuda". Até pode ser um pouco, mas por que não? Que mal há nisso? O fato é que esta é uma original tentativa de misturar gêneros. Ou seja é um documentário diferente, usando atores e personagens, no caso uma atriz premiada com o Oscar, Marlee Matlin no papel da heroína que passa por todos os problemas e dificuldades.
Foi batizado no Brasil de "Quem Somos Nós?". O que não deixa de ser bastante pretensioso. Uma pergunta que, aliás, o filme não pretende responder. Muito melhor é o título original que seria "What the Bleep do We know?" (Bleep - ou blipado, é a maneira que a censura americana na televisão elimina os palavrões. Substitui aqui o expletivo Fuck. Portanto, literalmente seria "Que P**** Sabemos?".
O filme aborda a física quântica de forma leve, deixando-a menos didática e chata, além de questionar o tempo todo o que seria o que vemos. O que é real ou irreal. E como damos valor exato, verdadeiro, para as coisas que nos apresentam no universo. Mais exatamente, se podemos ou não ter certeza se certos objetos "são o que são". Na parte final do filme, um cientista é questionado sobre a existência de Deus. Responde que tem dúvidas, mas se sente como um peixe no oceano. Neste exemplo do peixe, é como se quisessem mostrar o que seria essa dimensão quântica. Os peixes, seríamos nós, e o oceano, seria Deus. Depois falam da utilidade de se pensar quanticamente e como esta nova maneira de ser poderia nos ajudar no dia a dia.
Dão um exemplo: A água de uma fonte de montanha radiografada molecularmente por um cientista fotógrafo tinha uma certa composição, um desenho, e depois de abençoada por um monge budista, esta mesma água, novamente radiofotografada, apresentava uma outra estrutura mais colorida e com um desenho mais bonito. E o cientista diz, se somos feitos basicamente de água, 65%, então uma reza teria este mesmo efeito no corpo humano.
Mas basicamente, o que seria essa percepção que observa? Como é essa realidade que nós humanos construímos? Num exemplo no filme, a realidade não é simplesmente aquilo que vemos. Comprovadamente podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo. E isso é o mais difícil de aceitar. Difícil de entender? Talvez, o filme tenta tornar acessível através de depoimentos e historietas, informações revolucionárias e fundamentais para o homem moderno, dando margem à infindáveis especulações. Mas por isso mesmo fascinante.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Notícia Coincidentemente Triste
"O escritor português José Saramago morreu aos 87 anos em sua casa em Lanzarota, nas Ilhas Canárias, nesta sexta-feira (18).
A informação foi passada à agência de notícias EFE pela família do escritor de "Ensaio sobre a cegueira".
O escritor português era um dos maiores nomes da literatura contemporânea e vencedor de um prêmio Nobel de Literatura no ano de 1998 e de um prêmio Camões - a mais importante condecoração da língua portuguesa.
O autor era tido como o criador de um dos universos literários mais pessoais e sólidos do século XX e uniu a atividade de escritor com a de homem crítico da sociedade, denunciando injustiças e se pronunciando sobre conflitos políticos de sua época.
Entre seus livros mais conhecidos estão "O evangelho segundo Jesus Cristo", "A balsa de pedra" e "A viagem do elefante".
"Ensaio sobre a cegueira" foi levado às telas em um produção hollywoodiana filmada pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles (de "Cidade de Deus") em 2008.
No mesmo ano, uma exposição sobre o trabalho de Saramago foi exibida no Brasil. "José Saramago: a consistência dos sonhos" trazia cerca de 500 documentos originais e outros tantos digitalizados, reunidos em um formato que, misturando o tradicional e a tecnologia moderna, levavam o visitante a uma agradável e rara viagem pela vida e pela obra do escritor português.
Veja, abaixo, uma lista de romances escritos por Saramago
Terra do Pecado, 1947
Manual de Pintura e Caligrafia, 1977
Levantado do Chão, 1980
Memorial do Convento, 1982
O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
A Jangada de Pedra, 1986
História do Cerco de Lisboa, 1989
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991
Ensaio Sobre a Cegueira, 1995
Todos os Nomes, 1997
A Caverna, 2000
O Homem Duplicado, 2002
Ensaio Sobre a Lucidez, 2004
As Intermitências da Morte, 2005
A Viagem do Elefante, 2008
Caim, 2009"
O mais chocante pra mim foram as circunstâncias em que fiquei sabendo: ainda agora, quando minimizei o relatório sobre "Caim" que eu começava a fazer e abri a página da Globo.com. Está aparecendo como manchete principal... =(
Que ele descanse em paz.
Abraços..
terça-feira, 25 de maio de 2010
Próxima Reunião
A próxima reunião na qual debateremos "Caim" de José Saramago será:
Data: 27/05/2010 (QUINTA-FEIRA)
Horário: 16h
Local: Sala A5 - Bloco A - Campus Básico - UFPA
Lembrando que a participação é livre e gratuita, estendemos convite à todos(as) que tenham vontade de participar deste encontro.
Para aumentar esta vontade, vale a pena conferir alguns vídeos do autor disponíveis no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=Vd3GBaZNtAw&feature=related ; http://www.youtube.com/watch?v=ihnAvfbX4Rk&feature=related ; http://www.youtube.com/watch?v=EyOcrtCwekM .